segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os doutores sem doutorado

DOUTOR É QUEM FAZ DOUTORADO? *


No momento em que nós do Ministério Público da União nos preparamos para atuar contra diversas instituições de ensino superior por conta do número mínimo de mestres e doutores, eis que surge (das cinzas) a velha arenga de que o formado em Direito é Doutor.

O fato é que as faculdades privadas já dominam 90% da educação superior no país. Em grande parte dessas instituições temos verdadeiros campos de extermínio intelectual, com exploração intensiva de docentes submetidos a baixos salários, ao vexame dos pontos eletrônicos, e ao terrorismo das demissões. O chamado aperfeiçoamento é coisa impensável. O docente se afastar para fazer mestrado ou doutorado e a instituição pagar o salário durante esse período? Nem sonhar.

O artigo de Ribeiro Tura é uma demolição bem conduzida das falsas pretensões de muitos que querem ostentar o título de doutor. Aponta para um avanço, para a ruptura com a tradição nacional, que deu mais valor ao caráter de privilégio de certos diplomas (inicialmente, e desde muito tempo, ao de direito e ao de medicina), fazendo do advogado e do médico doutores. Sem passar pelos cursos de mestrado e, ainda menos, encarar os quatro ou cinco anos de doutorado, médicos e advogados ostentam um título que não têm. São doutores sem doutorado.

Mas a questão está em que, ao mostrar isso, Tura nos deixa um problema, a saber, a necessidade de indagar sobre a origem da legitimidade social que têm esses doutores sem doutorado. O fato é que o tratamento de doutor dispensado ao advogado e ao médico é prática generalizada, corriqueira e aceite como totalmente legitima pela maioria esmagadora dos brasileiros. De onde provém isso? Gosto de lembrar sempre, sobre esse assunto, uma passagem do livro de Ina Von Binzer, a educadora alemã que viveu alguns anos no Brasil nos primeiros anos da década de 80 do século XIX. Ela escreveu em 1881:

O Dr. Rameiro veio buscar-me. Não sei por que o chamam de doutor e duvido muito que ele próprio saiba encontrar a razão desse tratamento. A única explicação verossímil seria a de que todo brasileiro bem colocado na vida já nasce com direito a esse título, e por um lado pareceria uma falta de modéstia; e por outro seria estúpido exigir que eles o fossem conquistar à custa de estudos tão difíceis quanto desnecessários. (Von Binzer, Ina, Os Meus Romanos Alegrias e Tristezas de uma Educadora Alemã no Brasil, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. Carta de 27 de maio de 1881)

Pois é. O Dr. Rameiro foi um rico senhor de terras e de escravos, que empregou a alemã Ina como preceptora de seus filhos numa fazenda no interior. A doutoridade, para usar um termo inventado por Guimarães Rosa, que entendia do assunto, foi no Brasil antes de tudo um atributo social. Tendo nascido doutores, como os condes nascem condes, seria absurdo exigir que fossem conquistar um título de doutor à custa de estudos tão difíceis quanto desnecessários. Por isso, chamaremos esses de doutores de berço. Homens como o Doutor Olavo Setúbal, o Doutor Roberto Marinho, o Doutor Assis Chateaubriand, o Doutor Antônio Ermírio de Moraes, o Doutor José Mindlin, bibliófilo célebre, que transitava muito à vontade entre as brochuras e as capas duras. Pois aí temos alguns brasileiros bem nascidos, doutores de berço. Esses não precisaram cursar doutorado, dispensar esforços supérfluos aos estudos, defender tese.

De outro lado, temos os advogados e médicos (hoje, os diversos profissionais de saúde, como os dentistas, que começaram sendo chamados de práticos, subiram discretamente à categoria de dentistas, e, logo depois, galgaram a posição de odontólogos para, mais uma vez, sempre com modéstia, se tornarem doutores. É uma categoria que vai longe. Sempre calada, com a máscara cobrindo a boca, sem fazer alarde). Boa parte dos estudantes de direito e medicina era composta de indivíduos provenientes de setores pequenos burgueses no Brasil no século XIX e XX, remediados o suficiente para mandar um filho para a faculdade, mas na média pouco abastados. Gilberto Freyre descreve as acomodações parcas dos quartos de estudantes da época, praticamente sem móveis, uma cadeira faltando perna ali, um catre surrado para dormir acolá, uma vela para iluminar os cubículos, alimentação muito deficiente. E conclui: uma miséria. Ocorre que esses doutores, conseguiam os seus diplomas de bacharel e recebiam um anel de doutor. Já que essa história é antiga, parece razoável chamá-los de doutores por tradição, deixando subentendido que não é o mérito, nem a norma, nem o berço que os torna doutores.

Principalmente durante a segunda metade do século XX e nas suas últimas duas décadas, começou a formação em massa para doutores no Brasil. Os seguimentos mais baixos da classe média puderam, aos poucos, ter acesso ao tão cobiçado título, com esforço, suor, sangue e lágrimas (na formatura). Esses são os doutores acadêmicos. Hoje, seus títulos já abarrotam o mercado e, com isso, dado que as faculdades privadas, 90% das instituições de ensino superior, que deveriam empregá-los, têm carta branca do MEC para não fazê-lo, esses doutores estão, cada vez mais, destinados ao limbo social. No último concurso para gari no Rio, como mostramos no artigo 45 doutores disputam vaga de gari no RJ, uma tendência sinistra se verifica: as carradas de doutores acadêmicos formados nas últimas décadas e impedidos de ingressar como docentes no ensino superior se tornam supérfluos. Portanto, como tiveram bolsas de quatro anos, a maioria, resta concluir que o Estado vem queimando recursos públicos investidos em formação de alto nível. E para vantagem de quem? Das instituições de ensino superior privadas. No mínimo, a mão-de-obra abundante reduz os salários, já ínfimos. E a mão-de-obra doutoral é abundante porque as privadas não são obrigadas a contratá-los

Em resumo, temos o doutor de berço (que já nasce doutor), o doutor de tradição (que cursou direito ou a área de saúde) e o doutor acadêmico, o doutor que fez doutorado (que, eventualmente, pode ser graduado em direito ou medicina, é claro).

A valoração social, o status e a dignidade conferidos a cada uma dessas categorias, é o inverso do esperado numa sociedade democrática moderna, que, em tese, valoriza o esforço próprio e rejeita os privilégios. Ao contrário, dentro das coordenadas particulares da história brasileira resulta que quem carrega a doutoridade de berço vale muito mais; quem a conquistou numa graduação de medicina ou direito já é um doutor com d minúsculo, e, por fim, os que efetivamente realizaram uma formação laboriosa e desenvolveram pesquisas originais em suas teses de doutorado, esses são os que menos contam do ponto de vista das nossas arraigadas valorações sociais e políticas. Pelo contrário, há prevenção contra eles: são vistos como presunçosos.

O Congresso Nacional ostenta uma maioria de doutores por tradição, a maior parte de advogados. Por trás deles, com mais poder de mando e imposição de obediência, estão os doutores deitados em berço esplêndido, que não têm mandato político, nem vão perder tempo em nhém-nhém-nhém parlamentar, mas bancam as campanhas e obtêm a satisfação de suas demandas e de seus interesses dentro do Congresso. Eles são os verdadeiros representados na política brasileira. Podemos dizer que o Congresso Nacional representa não os interesses da população brasileira em geral, mas os interesses específicos dos doutores de berço. As instituições estatais, os ministérios, as agências reguladoras, as autarquias como o Cade (lembremos da última do dr. Perdigão com a drª Sadia) etc., todos representam primordialmente esse grupo restrito. E ai nós voltamos à questão que tomamos como título: Doutor é quem faz doutorado? E a resposta agora é negativa: Não. Doutor de verdade é quem não tem doutorado. Até o contrário, quanto menos doutorado tiver mais doutorabilidade, mais respeito, está apto a angariar.

Se o doutor de berço de ouro não existisse, mas apenas o doutor acadêmico, o título de doutor no Brasil seria levado a sério. Mas se, para ser doutor de verdade, o mais importante é ter tido berço, então o diploma carimbado e registrado no MEC não será lá muito respeitado. Nem pelo próprio MEC. O verdadeiro doutor não tem diploma. Ao contrário, ele zomba dos diplomas e dos diplomados. A base de sua posição não é o saber, mas o privilégio.

Vejamos a questão da educação e os privilégios concedidos aos donos das faculdades privadas através de um caso recente.

Faz pouco tempo um amigo me confidenciou que ele, que dá aulas numa dessas macabras ratoeiras, saiu mais cedo. Para ser exato, rodou a catraca um minuto mais cedo. Sim, existe uma catraca controlando eletronicamente quem entra e quem sai. Foi surpreendido no dia seguinte com uma convocação do controlador-mor, espécie de capitão do mato da assim batizada instituição de ensino superior. Surpreso, dirigiu-se ao antro. O pânico chegou quando sentiu a recepção fria, siberiana, e notou a carranca crispada do verdugo balançava numa mão, como se estivesse diante de um meliante, uma foto do docente como prova do crime. Era a foto dele, o meu amigo, de costas, no momento em que rodava a catraca. Um minuto antes do tempo regulamentar. Na base da foto estava impressa, em fileira longa de números digitais, o momento exato da sua saída. Foi devidamente repreendido. E ao murmurar alguma coisa sobre direitos e mencionar algo parecido com imagem, foi confrontado com a seguinte frase: Você prefere o olho da câmera ou o olho da rua?. Ora, esse nosso amigo, humilhado e ofendido, é um portador do título de doutor carimbado pelo MEC. Já o algoz que estava diante dele, com a foto entre as garras, é um sujeito que se orgulha de ter o primário incompleto. Mas todos os chamam de doutor e tiram o chapéu com deferência ao vê-lo passar. Estranho, não?

O Ministério Público Federal terá que se ocupar desse assunto. A vida acadêmica é essencialmente um exercício da liberdade, não importa se a instituição é pública ou privada. No ensino universitário, o docente não é mera máquina de repetir conhecimentos prontos. Ele deve ser um criador de conhecimentos novos. Por isso a exigência da pesquisa. Para ser criativo, o docente necessita de liberdade. Afora isso, essa parafernália de ponto eletrônico, terrorismo das câmeras, fotografias, etc, afronta evidentemente a dignidade pessoal. Isso tem que ser combatido.

Cronômetro, catraca, ponto eletrônico, vídeo, foto, reprimenda, ameaça e algoz. Tudo isso para que possam exercer a liberdade de ensinar prescrita na Constituição cidadã brasileira? Uma ordem rígida e ditatorial, semi-escravista, é imposta ao corpo do docente. Já para donos das faculdades privadas, tudo é bem diferente: o MEC transforma o estado em casa assistencial da mãe Joana, dando direito de fazer e desfazer, de carnavalizar a lei e aplicar todo tipo de esquema para aumentar a lucratividade. Durante muitos anos vimos aquelas avaliações de instituições particulares, que não mostravam a menor condição de funcionar. Eram fechadas? Eram punidas? Não. Ao contrário. Recebiam polpuda ajuda financeira para implementar melhorias. O que implementava mais ainda os próprios lucros que auferiam. Ensino ruim significa, na outra ponta, lucros exorbitantes.

Ora, se um docente não pode sair um minuto mais cedo, que dizer de um afastamento de dois anos para mestrado? E de quatro para doutorado? A responsabilidade pelo aperfeiçoamento de seus docentes seria condição elementar de um ensino superior de verdade, e não de araque, nas instituições privadas. Mas é impensável. Aliás, as coisas se flexibilizam sempre mais, tornando mais limitada a já insignificante percentagem de doutores que um curso superior precisa ter em seu corpo docente. São esses fatos, no fundo, que desvendam o segredo da força de aderência do ministro Haddad à frente do Ministério da Educação. Crises e asneiras não faltaram. Mas o ministro permaneceu firme no cargo. O inderrubável ministro conta com a adoração dos donos de faculdades particulares, bem representados e dominantes dentro do Conselho Nacional de Educação. E, não poderia ser diferente, dado o ótimo diálogo que o setor mantém com o ministro. Seria preciso ver como bolsas da Capes, do CNPq, vão regar as flores dos jardins dessas faculdades privadas. Em que quantidade e com que retorno real.

Para uma educação superior de qualidade é preciso, antes de tudo, punir as faculdades privadas que desrespeitam as normas atuais (muitíssimo negligentes) e, em seguida, criar uma nova normatização, radicalmente distinta da atual. Imposssível? Não. Mais que isso. Completamente inviável. Fazer cumprir a legislação atual, o Ministério Público pode conseguir, mas não vai ser fácil. Já a possibilidade de uma revolução normativa, me parece inexequível. Quem manda na educação superior são as privadas. Quem queira imaginar o que é o Conselho Nacional de Educação lembre do seguinte: o filósofo José Arthur Giannotti, amigo íntimo de FHC, saiu de lá logo depois de entrar, em 1997, afirmando sobre a Câmara de Educação Superior, um dos órgãos do Conselho: A câmara se transformou numa reunião de lobbies, num fórum de partilha de interesses privados. Na verdade, por obra de FHC e do seu partido, o que o nosso ingênuo filósofo fingiu ignorar, não apenas essa câmara, mas o estado brasileiro inteiro transformou-se numa reunião de lobbies, num fórum de partilha de interesses privados.

E isso nos convida a considerar um caso recente, relativamente raro de doutoridade. Ele se encontra no recente escândalo no Dnit envolvendo a triste figura do Doutor Fred. Esse doutor tem sido chamado de funcionário fantasma nos últimos dias. O que parece um erro, porque não era funcionário, em primeiro lugar, e em segundo porque comparecia todo dia, era diligente e aplicado. Até por demais meticuloso. O funcionário fantasma é um ausente. E é funcionário. O doutor Fred nem era ausente, nem funcionário. Na verdade, também não era Fred. Era Frederico. Certo é que era doutor: o doutor Fred. Mas sua modalidade de doutoridade era distinta. O doutor Fred era poderoso, despachava em gabinete próprio, tinha gente à sua disposição, certamente motorista, secretária, e lá quantos agregados precisava no seu bureau. Porém, aconteceu algo que mudou a sua vida. Ele, que nunca esteve escondido, foi descoberto.
Instantaneamente, a realidade ontológica do Doutor Fred ruiu. Caiu das alturas, de onde planava em seu vôo livre em céu de brigadeiro, quando foi desinflado de toda a sua realidade num passe de mágica. Foi o que fez o diretor afastado do Dnit, ao afirmar: Não vou dizer que é um pobre coitado. Não é funcionário de carreira, não tem poder de decisão nenhuma. Se pudesse comparar, diria que é um estafeta, um boy.

Pois é. O Doutor Fred perdeu tudo. Mas, é importante observar, que tudo que ele perdeu ele não tinha: ele perdeu a condição de funcionário, coisa que ele não era mesmo; deixou de ser o homem das decisões, mas quem disse que ele decidia alguma coisa? Tudo indica que era mero despachante de Valdemar da Costa Neto. Um intermediário. Ele, então, tendo sido despachado da condição de intermediador, perdeu também o seu título simbólico, de Doutor passou a um estafeta, um boy. A sua posição anterior como intermediário de uma força maior o Valdemar da Costa concedia a ele as costas quentes. Mas, de súbito, suas costas esfriaram. Ai sua posição hierárquica se inverteu como num tombo: de doutor passou a boy. Ou seja, do lugar mais alto na burocracia civil, o doutor, foi posto na posição mais rasteira das repartições: a de boy.

O ex-doutor Fred ainda merece ser melhor definido. Se ele não era um fantasma, já que fantasmas são os funcionários ausente e ele nem era funcionário nem ausente , então qual era o ser metafísico, sobrenatural, do ex-doutor antes de perder sua doutoridade? Quando despachava, decidia, tomava decisões, falava ao telefone o dia inteiro e dava ordens e exigia providências? Na verdade, presumo que o Fred era um tipo especial de entidade transmundana, um pouco diferente do vulgar fantasma, que no Brasil tem pra dar e vender. O fantasma ostenta uma peculiaridade: arisco à luz, costuma se esquivar, e se dá as caras, é nas horas mortas, quando o pessoal da repartição já foi embora e ele entra para assinar o ponto. Não era o caso do doutor Fred, acintosamente presente. Por isso, me parece, Fred tem mais um perfil de aparição do que de fantasma. E a sua encarnação terminou em tragédia justamente por causa disso: porque apareceu demais.

Por falar nisso, é curioso notar que as denuncias no Dnit vêm levando ao afastamento dos suspeitos, funcionários, apaniguados e políticos. Contudo, esses indigitados estão todos do lado do estado, seja como funcionário, políticos ou aparições. Mas a corrupção tem outro lado, a dos que corrompem. Desse lado, tirando as mirradas empresas (de filhos, mulheres e irmãos) que parecem peneirar as sobras, as migalhas dos milhões que caem da farra do banquete principal, nada mais vemos. Coisa grande, empresa de grande porte, nome muito conhecido na praça, nada disso aparece.

Minha hipótese é de que não aparecem porque, por trás dessas empresas, estão os doutores de berço, que conseguem manter o véu espesso da obscuridade. O Estado brasileiro também não foi feito para persegui-los, trazê-los para a luz do dia e, com isso, desfazer o seu encanto, e o seu poder. Ao contrário, o Estado é o maior cúmplice da obscuridade. No dia que o Estado mudar, esses doutores serão remidos das trevas e, como o recém desencarnado doutor Fred, vão cair das alturas e arrastar suas correntes pelos longos corredores das penitenciárias. Mas, por hora, nada parece mais distante.

Autor: *Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas. Foi duas vezes premiado pelo Ministério da Cultura por seus ensaios sobre o pensamento social e cultura no Brasil. É coordenador da revista eletrônica, Revista Humanas, órgão de divulgação científica da Cátedra Unesco de Multilinguismo Digital (Unicamp) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFES.

domingo, 17 de junho de 2012

Luiz Felipe Pondé: Narcisismo no "Face" *

"Não estou a menosprezar os medos humanos; muito pelo contrário, o medo é o meu irmão gêmeo"



 

Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcisista. Personalidade narcisista não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.

Faço parte do que o jornal britânico "The Guardian" chama de "social media sceptics" (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (22/3/2012).
Ser um "social media sceptic" significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.

E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.

Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.

Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.

Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".

A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.

Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.

O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".

Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.
A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.

* texto publicado no site Folha.Com em 16/04/2012.
(http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1076424-narcisismo-no-face.shtml)

sábado, 12 de maio de 2012

Funai alerta para risco de genocídio de índios isolados no Acre *

O avanço da exploração econômica na fronteira entre o Brasil e o Peru ameaça causar um genocídio entre índios que vivem isolados na região, segundo organizações indígenas e indigenistas ouvidas pela BBC Brasil.

Estimados em algumas centenas pelo escritório da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Rio Branco (AC), esses índios - em sua maioria falantes das línguas pano e aruak - vivem nas cabeceiras de rios na fronteira, atravessando-a livremente.

No entanto, segundo indigenistas, a exploração de madeira e o tráfico de drogas estão deslocando esses povos, que, em contato com outras populações (indígenas ou não), poderão ser dizimados por doenças ou confrontos armados.

'Notamos que há mudanças nas rotas dos isolados, que têm avançado além dos espaços que costumavam frequentar, por conta da pressão que sofrem do lado peruano', diz a coordenadora da Funai em Rio Branco, Maria Evanízia dos Santos.
'Índios contatados estão preocupados, e muitas aldeias se mudaram por conta da proximidade, para evitar confrontos'.

O quadro, diz Santos, se agravará caso obras planejadas por governantes locais saiam do papel. Há planos de construir uma estrada entre as cidades peruanas de Puerto Esperanza e Iñapari, margeando a fronteira com o Brasil, e de fazer uma rodovia ou uma ferrovia entre Cruzeiro do Sul (AC) e Pucallpa, no Peru. Ambas as obras cruzariam territórios de índios isolados.

'Se eles forem espremidos, vão para cima dos manchineri da TI (Terra Indígena) Mamoadate, que vão se defender. Como há histórico de conflitos, não é leviano falar em risco de genocídio', diz o coordenador-substituto da Funai em Rio Branco, Juan Scalia.
O termo também é citado por indígenas peruanos: 'Se a estrada de Puerto Esperanza a Iñapari sair, haverá um genocídio', afirma Jaime Corisepa, presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), principal movimento indígena do Departamento (Estado) de Madre de Dios.

Risco de conflitos

As pressões sofridas por índios isolados no território peruano e seus possíveis efeitos no Brasil já fizeram com que o presidente da Funai, Márcio Meira, procurasse a embaixada do Peru em busca de providências. Paralelamente, movimentos como a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) têm promovido encontros com índios brasileiros contatados para conscientizá-los sobre as ameaças sofridas pelos isolados e desencorajar conflitos.

'Eles percebem que os isolados estão vivendo o tempo das correrias de seus avós, que fugiam dos empresários da seringa', diz Marcela Vecchione, consultora da CPI-Acre. Ela se refere à violência sofrida pelos índios da região durante o ciclo da borracha, entre o fim do século 19 e início do 20.

Acredita-se que os índios isolados sejam remanescentes de grupos massacrados e perseguidos durante aquele período. Com o declínio da extração de borracha, eles voltaram a seus territórios.

'Sabemos que eles estão bem, têm comida suficiente e vivem em malocas bem cuidadas', diz Santos, da Funai, citando informações colhidas em expedições do órgão. Numa delas, em março de 2010, um avião sobrevoou uma aldeia de índios isolados, que atiraram flechas contra a aeronave. As fotos estamparam jornais do mundo todo.

Encontros

Embora a expressão índios isolados possa sugerir grupos que vivam completamente alheios ao mundo exterior, há numerosos relatos de encontros entre essas populações e índios contatados, bem como de encontros entre índios isolados e não-indígenas que habitam o entorno de seus territórios.

Muitos desses encontros resultaram em conflitos, o que rendeu aos isolados o apelido de 'índios brabos' na região. Em 1986 e 1987, segundo relato do sertanista da Funai José Carlos Meirelles, o acirramento dos conflitos levou índios kaxinawá e ashaninka contatados a pedirem que o governo 'amansasse os brabos'.

Em resposta, a Funai criou em 1988 o Departamento de Índios Isolados, cuja missão é proteger esses povos sem promover nenhuma relação. Desde então, a política da Funai estabelece que só haverá contato com esses indígenas se eles desejarem.

No entanto, têm se tornado cada vez mais constantes os relatos da presença de índios isolados em áreas ocupadas por indígenas contatados ou comunidades de agricultores e pescadores.

Em informativo publicado em dezembro de 2010 pela CPI-Acre, indígenas e ribeirinhos entrevistados dizem que índios isolados furtaram seus pertences, como roupas, utensílios domésticos e ferramentas. Os saques, segundo o informe, têm sido especialmente frequentes no município de Jordão (AC). Um deles, em 2009, ocorreu em vilarejo a cinco horas de caminhada da sede da prefeitura.

Também na publicação da CPI-Acre, Getúlio Kaxinawá, um dos principais líderes indígenas do rio Jordão, relata a morte de um 'brabo' por caçadores não-índios, em 2000. 'Sei também que em maio de 1996 os brabos mataram duas mulheres lá na colocação Tabocal (...), a dona Maria das Dores (47 anos) e sua filha Aldeniza (13 anos). A filha, atingida por várias flechadas, uma delas na garganta, morreu nessa colocação e a mãe, com uma flechada na barriga, só morreu quase dois meses depois num hospital de Rio Branco'.

Kaxinawá relata ainda um ataque dos 'brabos' que resultou na morte do dono de um seringal, em 1997, e de ofensiva empreendida pelo grupo contra uma comunidade de não-índios: 'Cercaram a sede do (seringal) Alegria, fazendo muito medo a todos os moradores de lá. Eles também cercaram e flecharam uma escola lá no alto Tarauacá e depois a maioria dos moradores se retirou de lá por causa da vingança dos brabos'.

Exploração de petróleo

Além das ameaças impostas pelas estradas, por madeireiros e traficantes, ONGs alertam para os riscos da exploração petrolífera na região fronteiriça. No lado peruano, vários lotes já foram cedidos a empresas privadas para a prospecção dos bens.

A ONG Survival International afirma que o governo peruano está permitindo que as empresas avancem sobre territórios de índios isolados, violando diretriz da ONU que defende a proteção dessas áreas.

A organização diz que, em 1980, ações semelhantes provocaram a morte de quase metade dos membros do povo nahua. À época, funcionários da Shell abriram caminhos na terra indígena em que a comunidade vivia isolada, disseminando doenças entre seus integrantes, segundo a ONG.

Também há preocupações quanto à exploração de petróleo e gás do lado brasileiro. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) deve concluir neste ano testes sísmicos para avaliar a viabilidade de extrair os recursos.

* matéria publicada no site msn.com.br, no dia 19/04/2012.